Você já testou o Suno, mesmo que só por curiosidade. E, se testou, provavelmente também já se perguntou até onde vai a linha entre “a IA se inspirou num estilo” e “a IA copiou uma música que já existe”. Essa dúvida acabou de ganhar resposta num tribunal.
No dia 2 de setembro, a SOCAN, entidade que administra direitos autorais de execução pública no Canadá, entrou com uma ação contra o Suno na Corte Federal canadense. A alegação central é direta, mas o volume de evidência apresentado é o que muda o jogo: a SOCAN reuniu 150 áudios gerados pelo Suno, derivados de 137 obras do seu repertório, e afirma que boa parte deles é “idêntica ou virtualmente idêntica” às composições originais em melodia, harmonia e letra.
O caso concreto: nota por nota, não só “parecido”
A peça central da ação é a comparação nota a nota entre um output do Suno e “Both Sides Now”, de Joni Mitchell. Não é uma semelhança de estilo, é uma reprodução estrutural da composição. O segundo exemplo citado é ainda mais direto: uma versão gerada do “Sk8er Boi”, de Avril Lavigne, com a letra trocada para coreano, mas com melodia e harmonia “virtualmente idênticas” ao original. Ou seja, trocar o idioma não bastou pra descaracterizar a obra aos olhos da SOCAN.
A entidade também cita “Life is a Highway” (Tom Cochrane), “Femme Like U” (K. Maro), “Passing Out in America” (Alexisonfire) e “S.O.S. d’un terrien en détresse” (Daniel Balavoine) como parte do mesmo padrão. E deixa um recado no próprio texto da ação: esses 150 casos são só “a ponta do iceberg” do que pode existir dentro da base do Suno.
Quanto dinheiro está em jogo
Aqui a queixa sai do campo simbólico e vira número. A SOCAN está pedindo danos estatutários de CAD 20 mil por música, o que soma cerca de CAD 2,74 milhões considerando as 150 obras já identificadas. Além disso, pede CAD 10 milhões em danos punitivos, reservando o direito de incluir novas músicas na lista conforme o processo avança. No pedido também está uma injunção ampla: não só parar de gerar as obras específicas citadas, mas bloquear qualquer output futuro que infrinja qualquer composição do repertório da SOCAN.
Jennifer Brown, CEO da entidade, resumiu o argumento numa frase: “inovação não pode vir às custas da criatividade humana”. Já Andrea Kokonis, diretora jurídica, foi direta sobre o objetivo prático da ação: estabelecer que empresas de IA precisam respeitar os direitos de quem cria e publica música, não tratar isso como detalhe operacional.
Não é um caso isolado, é um padrão se formando
Esse processo é o terceiro contra o Suno movido por uma entidade de gestão coletiva, e o primeiro depois de uma vitória concreta: em 31 de julho, a GEMA (Alemanha) venceu o Suno em primeira instância na Justiça de Munique. A dinamarquesa Koda entrou com ação parecida em novembro de 2025 e o caso ainda está em andamento. A diferença é que GEMA e Koda miraram principalmente os dados usados no treinamento do modelo, enquanto a SOCAN foca no que sai do outro lado: o output entregue ao usuário final.
Some a isso as ações separadas de Universal Music Group, Sony Music Entertainment, Round Hill e artistas independentes, mais a class action movida por Jason Isbell e David Lowery no fim de agosto, essa focada em uso de identidade e voz. No fim das contas, é uma pinça fechando de vários lados ao mesmo tempo sobre o mesmo modelo de negócio.
E, apesar disso, existe uma saída que o próprio Suno já mostrou que funciona: fechar acordo. A empresa já tem licenciamento firmado com Warner Music Group e com a BMG, o que prova que dá pra operar dentro da lei quando existe negociação e pagamento pra quem detém o catálogo. A SOCAN, por outro lado, afirma que nunca emitiu licença nem recebeu um centavo de royalty do Suno, apesar de o treinamento ter usado, segundo a própria ação, “pelo menos centenas de milhões de arquivos de áudio” sem autorização.
O que isso muda pra quem produz música de verdade
Talvez você não tenha um catálogo do tamanho de Joni Mitchell pra se preocupar em ser copiado nota por nota. Mas a lição prática desse processo é outra: usar ferramenta de IA generativa pra criar ou finalizar uma faixa que você pretende vender, licenciar ou distribuir comercialmente carrega um risco de originalidade que você não controla. Se o modelo foi treinado sem licença sobre uma base gigantesca de música protegida, qualquer output pode carregar DNA de uma obra que não é sua, mesmo que você não tenha pedido isso de propósito.
Isso não significa parar de explorar IA na produção. Significa tratar o output dela com o mesmo cuidado que você trataria uma sample não clareada: verificar, documentar a autoria do que você efetivamente criou e não assumir que “gerado por IA” equivale a “livre de direito autoral de terceiro”. Esse tipo de decisão de longo prazo sobre catálogo, risco e carreira é exatamente o tipo de conversa que rola dentro da Business Track, com quem já passou por isso na prática.
A SOCAN (Society of Composers, Authors and Music Publishers of Canada) é a entidade canadense responsável por administrar e cobrar direitos autorais de execução pública em nome de compositores, autores e editoras. Como o Suno teria usado e distribuído obras do repertório dela sem licença, a SOCAN tem legitimidade legal pra representar esses criadores em juízo.
Posso usar músicas geradas pelo Suno comercialmente sem risco de direito autoral?
O processo da SOCAN mostra que outputs do Suno podem reproduzir melodia, harmonia e letra de obras protegidas de forma quase idêntica ao original, mesmo em outro idioma. Isso significa risco real pra quem usa esses outputs em projeto comercial, já que a responsabilidade por infração pode recair sobre quem distribui a faixa, não só sobre a empresa que a gerou.
Esse processo no Canadá afeta produtores e artistas de outros países?
Diretamente, o processo vale pra território canadense e pro repertório administrado pela SOCAN. Mas o padrão que ele expõe é global: GEMA (Alemanha) já venceu um caso parecido, Koda (Dinamarca) tem outro em andamento, e Universal, Sony e Round Hill movem ações próprias. É esse padrão, não o processo isolado, que importa pra qualquer criador que usa IA generativa fora do Canadá.